Ansiedade não é brincadeira!

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Em minha matéria anterior, trouxe para reflexão o fato de que Depressão “não é frescura”, já que muitos ainda tendem a encará-la equivocadamente como tal. Na mesma linha, entendo ser de extrema importância falarmos também sobre a Ansiedade. Afinal, quem possui diagnóstico de transtorno dessa natureza experimenta sofrimento considerável e, da mesma forma que os Transtornos Depressivos, o Brasil tem liderado o ranking de casos em relação aos Transtornos de Ansiedade durante a pandemia da Covid-19, conforme dados do já mencionado estudo global conduzido pela Universidade Estadual de Ohio (EUA) (¹).

Se procurarmos o conceito de Ansiedade no dicionário, encontraremos as seguintes definições: “sofrimento físico e psíquico; aflição, agonia, angústia, ânsia, nervosismo.; PSICOL estado emocional frente a um futuro incerto e perigoso no qual um indivíduo se sente impotente e indefeso; FIG desejo ardente ou veemente; anelo; sentimento e sensação de intranquilidade, medo ou receio” (²). É um sentimento bastante conhecido e, não raro, podemos experimentá-lo em diferentes momentos do nosso cotidiano diante de situações que nos causem algum tipo de empolgação, preocupação ou insegurança. Muito provavelmente é em função disso que as pessoas tendem a acreditar que têm total compreensão quando alguém menciona sofrer de um Transtorno de Ansiedade, porém dificilmente conseguem acessar a dimensão de uma vivência dessa natureza e a magnitude do impacto que ela pode ter na vida do indivíduo.

Tanto isso é verdade que, na Classificação Internacional de Doenças (CID-10), existe uma diversidade considerável de transtornos que têm a Ansiedade como pano de fundo, ainda que contem com suas respectivas especificidades (³). A proposta aqui não é a de abordá-los individualmente, mas sim de trazer a noção do quanto têm o poder de ser realmente incapacitantes se não forem adequadamente diagnosticados e tratados.

A ansiedade comum que experimentamos diante de um problema a ser resolvido, por exemplo, não se compara às crises de alguém que sofre de TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada) ou de Transtorno de Pânico. De modo geral, nesses casos a pessoa tende a apresentar um conjunto de sintomas físicos associados à ansiedade em si e aos pensamentos incontroláveis de medo. É por esse motivo que o título ressalta que “Ansiedade não é brincadeira” – pelo contrário, é um grande sofrimento para quem a experimenta e, não raro, para os que estão por perto e se sentem impotentes para ajudar.

Sempre digo que a pior coisa a se falar para alguém em meio a uma crise de ansiedade é que a pessoa precisa ter calma. Isto porque não se trata de uma escolha experimentar o descontrole de sentimentos e sensações que a compõem e, obviamente, ficar calmo é tudo o que alguém gostaria de conseguir em um momento assim. O mais importante, nessas horas, é estar por perto e, se possível, fazer-se presente através de atitudes, oferecendo segurança e tranquilidade até que os sentimentos ruins comecem a se dissipar. Além disso, reconhecer o problema e estimular – ou mesmo auxiliar – que a pessoa busque ajuda profissional também faz muita diferença. Um diagnóstico correto permite definir condutas que poderão auxiliar no controle das emoções e na ressignificação das vivências, fundamentais ao enfrentamento e superação da situação.

E qual seria a ajuda profissional indicada? O ideal é que Psiquiatria e Psicologia atuem conjuntamente nessas situações. É claro que nem sempre a medicação é necessária, porém, não raro, ao menos por um período inicial, ela pode ser importante para o manejo das crises até que o trabalho psicoterapêutico se consolide. Por outro lado, apenas o remédio sem que haja um espaço de autoconhecimento e reflexão pode mascarar a real condição e protelar uma melhora efetiva.

Isto porque é preciso, fundamentalmente, fazer as pazes com uma noção existencial básica para poder seguir em frente: a da ausência de controle absoluto, que geralmente consiste em uma espécie de gatilho para as crises. É nesse espaço que a Psicologia se insere e, partindo sempre da singularidade daquele que busca pela psicoterapia, objetiva compreender seu sofrimento e, a partir daí, construir outras possibilidades de enfrentamento das situações.

Encerro mais uma vez com uma sugestão que tenho repetido bastante, por entendê-la como fundamental nesse momento que estamos vivendo: se estiver muito difícil, não fique sozinho. Busque ajuda.

(¹) https://www.mdpi.com/1660-4601/18/5/2686
(²) https://michaelis.uol.com.br/busca?id=vKKM
(³) http://www2.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f40_f48.htm