As possibilidades de escolha da mulher de hoje: liberdade ou aprisionamento?

492 0
Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

A contradição existente no título da presente matéria é proposital. Afinal, possibilidades de escolha deveriam significar liberdade, não é mesmo? Observo, porém, que, na prática, isso não tem sido vivenciado bem assim por uma grande parte das mulheres e é sobre isso que gostaria de refletir com você.

Não há como negar que, atualmente, os espaços ocupados por mulheres em nossa sociedade têm crescido exponencialmente, que nossa voz tem sido ouvida e nossos direitos vêm sendo debatidos cada vez mais abertamente. Como deve ser do conhecimento de todos, para chegar a esse ponto, foram (e em muitos casos ainda são) necessários grandes embates e rompimentos de paradigmas extremamente consolidados.

Sem dúvida, reconhecer este processo é fundamental em termos da valorização das referidas conquistas. O que observo, porém, é que existe uma parcela significativa de mulheres que entende que, para que essa valorização seja efetiva, é necessário abandonar certas escolhas, consideradas “ultrapassadas”. Nesse sentido, portanto, questiono se, nesses casos, a liberdade arduamente conquistada não acaba sendo vivenciada, na verdade, como outra forma de aprisionamento.

É importante deixar claro que a reflexão que faço aqui é do ponto de vista psicológico e dos conflitos que, não raro, testemunho na vida das pessoas com as quais tenho contato profissionalmente. Nesse sentido, não é incomum que mulheres que desejam, por exemplo, trabalhar menos para cuidar dos filhos em seus primeiros anos de vida sintam-se pressionadas e enfrentem significativo sentimento de culpa que, por sua vez, pode levar ao adoecimento emocional.

“Ora, mas então você propõe o retorno aos papéis ‘tradicionais’ destinados às mulheres!?!?” Não. O que proponho é uma reflexão bem mais complexa do que essa, que leve em conta a singularidade, que diferencie aquilo que se faz porque é realmente o próprio desejo daquilo que se faz por pressões externas. Encontrar esse meio termo, esse caminho realmente significativo, digamos assim, não é tarefa fácil. Mas considero imprescindível no processo de cuidado a saúde emocional.

Em resumo, digamos que precisa estar igualmente tudo bem se uma mulher deseja ocupar altos cargos em grandes empresas, dedicar-se a sua carreira e não ter filhos; se deseja ser mãe e dedicar-se exclusivamente aos cuidados da casa e das crianças; ou se deseja qualquer outra coisa diferente dessas opções. A questão é permitir-se escolhas verdadeiramente alinhadas com aquilo que faz sentido e, acima de tudo, traga satisfação e realização. Aí sim, acredito que podemos falar em liberdade!