Até quando vamos brigar por verdades absolutas?

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Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

Considerando que esta é a última edição do ano, penso ser interessante propor uma reflexão sobre o ciclo que está se encerrando, já mantendo em perspectiva o próximo que está por vir. Ao fazer um balanço sobre tudo o que vi e ouvi em 2017, profissional e pessoalmente, acredito que, no mínimo, podemos afirmar que foi um ano de grandes polêmicas. Naturalmente, minha proposta com a presente matéria não é reacendê-las, muito menos defender uma ou outra perspectiva em relação às mesmas, mas sim refletir, enquanto profissional que trabalha com o comportamento humano, sobre um elemento frequentemente presente como pano de fundo dos grandes impasses: a crença de que o próprio ponto de vista é verdade absoluta e, portanto, deve prevalecer sobre os demais.

Imagino que você já tenha se lembrado de pelo menos uma situação ao ler o parágrafo anterior, vivenciada diretamente por você ou não. Não precisamos ir muito longe – basta acessar uma ou outra rede social, na verdade – para observar divergências serem abordadas em verdadeiros campos de batalha, tendo como protagonistas pessoas exasperadas que muito têm a dizer, mas pouco, ou quase nada, se dispõem a ouvir. Observo que, não raro, essa dinâmica transforma o que poderiam ser discussões construtivas em uma somatória de monólogos infrutíferos e, pior, faz com que os envolvidos de todos os lados se enrijeçam ainda mais em suas opiniões inevitavelmente parciais.

Para não correr o risco de ser mal interpretada, gostaria de deixar claro que não estou propondo aqui que todos nós deveríamos abrir mão de nossos pontos de vista. Eles são a base e o referencial para fazermos escolhas o tempo todo e direcionar nossas vidas. O que venho defender é que não deveríamos nos esquecer de que eles são somente isso: pontos de vista. E justamente por essa razão, carregam em sua essência o fato de que foram construídos a partir de um conjunto de experiências e significados pessoais (e, portanto, singulares) atribuídos a elas. Ao deixar de levar isso em consideração, a tendência é desenvolvermos uma grande dificuldade de se colocar no lugar do outro e, consequentemente, respeitar que ele tem o direito, tanto quanto nós, de ter uma determinada opinião ou posicionamento sobre qualquer questão que seja.

Observo que esse modo de agir não tem aparecido com tanta ênfase apenas em espaços coletivos, mas também se encontra extremamente arraigado até mesmo nas relações de maior intimidade. Quantos exemplos a mídia nos apresentou, nos últimos meses, de tamanho desrespeito ao desejo do outro, quando este se mostrou divergente, que culminaram em violência e até morte? Embora extremas, em essência, tais atitudes não são tão diferentes das de pais que rompem com seus filhos por não aprovarem algumas de suas escolhas ou de amigos que encerram relacionamentos em função de divergências de opinião, por exemplo, e geralmente se remetem a uma mesma concepção: a de que o meu ponto de vista é “mais verdadeiro” que o do outro e, portanto, este último não merece o meu respeito ou consideração.

Infelizmente, enquanto sociedade, avalio que retrocedemos bastante nessa direção no último ano, você não acha? Como escrevo sempre com a expectativa de que minhas palavras cheguem a cada leitor como uma problematização construtiva, elegi esta temática para fecharmos 2017 refletindo se queremos ou não continuar nessa direção nos próximos 12 meses. Começando pelas relações familiares, de amizade ou de trabalho, até espaços coletivos mais amplos dos quais faça parte, desejo que você pondere: até quando vamos brigar por verdades absolutas, se, ao aceitarmos que podem existir perspectivas diferentes, temos muito mais chances de somar?

Consultório:
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