Balanço de final de ano e o “novo normal”: o contato com o imprevisível

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Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

Várias pessoas têm me revelado, nos últimos tempos, que já estão com “birra” da expressão “novo normal” que utilizei no título. É compreensível. Ela representa a tentativa de conceituação de algo que está fora do nosso controle e que, constantemente, nos coloca em contato com a impossibilidade de seguir a vida como sempre fizemos, antes da pandemia do novo coronavírus. Gostemos ou não, é com esse cenário que o ano está chegando ao fim, época que costuma trazer consigo o famoso balanço para delinear os planos para o novo ciclo que está por vir.

É verdade que, para alguns, poucas coisas mudaram no dia a dia desde que, em março de 2020, passamos a adotar as medidas de isolamento/distanciamento social. Mas a realidade é que, para a maioria de nós, a transformação do cotidiano se deu de forma abrupta e radical. Essa vivência, não raro, mobilizou reflexões ligadas à fragilidade das idealizações e metas que costumamos traçar para nossa vida: elas podem ser atropeladas por um acontecimento externo – nesse caso, de proporções mundiais – e, da noite para o dia, se tornar inviáveis.

Diante disso, o sentimento de paralisia frente ao futuro vem ganhando espaço, e cada vez mais pessoas têm se percebido perdidas e com dificuldade de se permitir acessar, por exemplo, os próprios desejos e anseios para o próximo ano. Isto tem acontecido, na maioria dos casos, porque foi muito sofrido lidar com as possibilidades que não se concretizaram. O questionamento “de que adianta fazer planos se, a qualquer momento, tudo pode mudar?” é legítimo. Mas será que deveria trazer consigo tamanho estreitamento dos nossos horizontes e perspectivas?

Entendo que tal impacto esteja relacionado, ao menos em parte, ao fato de que é bastante comum raramente entrarmos em contato com uma noção existencial básica: a ausência de garantias. Vivemos o tempo todo nos projetando, cheios de certezas, para um futuro sobre o qual, a rigor, não temos o menor controle e pode, de fato, mudar a qualquer momento, à revelia da nossa vontade. Ora, isso significa, então, que deveríamos viver um dia de cada vez sem pensar no amanhã?

Claro que não. Seria extremamente radical e é praticamente impossível estruturar uma existência dessa maneira. O ponto de equilíbrio que me parece mais saudável é aprender a contar com essas “variáveis”, digamos assim. Lembrar-se que os planos que estão sendo feitos são apenas planos – que podem mudar a qualquer momento – traz a condição de ampliar o horizonte de possibilidades, não estreitá-lo: se eu sei que não tenho garantias posso, minimamente, me preparar para a necessidade de me reinventar, se for o caso. Tal postura pode, inclusive, trazer bem menos sofrimento diante dos imprevistos, tão comuns à vida.

Nesse pequeno recorte que estamos fazendo, portanto, o novo normal não significa assimilar a noção de imprevisibilidade como restrição às possibilidades de sonhar e planejar o futuro. Pelo contrário. Ele aponta para uma nova forma de encará-lo: com uma certa pitada de coragem e confiança na nossa própria capacidade de “recalcular a rota” se o trajeto nos surpreender. Afinal, não foi isso que todos nós fizemos até aqui? Muitas vezes pagando um preço alto, é verdade. Mas por que não apostar que continuaremos, cada vez mais, aprimorando essa condição e se permitir idealizar um futuro em que isso se dê de forma mais amena e sem tanto sofrimento?

Dito isto, deixo a pergunta: que sonhos e planos você tem para 2021?