Conclusões precipitadas e desgaste emocional: você está caindo nessa?

314 0

O tema escolhido para a presente matéria, como de costume, partiu da minha observação – enquanto pessoa e profissional de Psicologia – de uma tendência comportamental crescente nos últimos meses, sobre a qual considero valer a pena lançar luz. Como você provavelmente já notou, em função do isolamento social decorrente da pandemia de Covid-19, passamos a ocupar os ambientes virtuais com uma frequência ainda maior do que já vínhamos ocupando e, consequentemente, a ficar expostos a uma quantidade de informação ainda mais intensa do que antes. Naturalmente, este fato não é um problema em si – pelo contrário, pode abrir um universo de possibilidades de compreensão sobre o mundo e até sobre nós mesmos. A questão aqui é como muitos de nós têm, concretamente, administrado essa mudança e qual é o impacto emocional decorrente dessa superexposição a tantos conhecimentos e variações de interpretação da realidade, digamos assim.

Creio ser importante não perder de vista que estamos nos referindo a um momento bastante incomum, já que temos, como pano de fundo, a vivência de uma pandemia e do isolamento social em si – independente da opinião que se tenha sobre ele – bem como de todos os seus desdobramentos. Já abordamos essa questão no texto da edição anterior, mas cabe aqui ponderar que, em maior ou menor escala, há alguma influência sobre a forma como estamos experimentando e enxergando as situações – talvez com mais impaciência, talvez com mais envolvimento, talvez com mais apatia.

Isto posto, gostaria de me voltar agora a outro ponto central dessa reflexão: a questão das conclusões precipitadas. Que “atire a primeira pedra” quem nunca deduziu todas as informações contidas em uma reportagem, por exemplo, apenas pelo seu título e, não raro, reagiu imediatamente a esse conteúdo manifestando as próprias opiniões, previamente construídas. Isso, em grande parte, tem gerado desentendimentos significativos entre as pessoas e, conforme observo, um enrijecimento cada vez maior em suas posturas e posicionamentos. É como se muitos de nós, nesse processo de acesso a tanta informação, sentissem que precisam lutar para proteger o seu próprio ponto de vista, em uma experiência de ameaça constante, acabando por reagir de forma impulsiva e irrefletida.

Ora, não é muito difícil imaginar que a combinação dos elementos descritos até aqui possa ser bastante delicada, não é mesmo? Todos os desafios emocionais de vivenciar um momento como o que estamos vivendo enquanto sociedade, somados a essa postura armada de que é preciso brigar sempre para garantir que a própria verdade não esteja ameaçada – seja pelo simples direito do outro interpretar a realidade de forma diferente da nossa, seja pelas novas informações que surgem a todo momento e convidam à desconstrução daquilo que, até então, fazia total sentido pra nós. A concretização disso pode ser facilmente observada em sequências de comentários nas redes sociais, onde os usuários, em geral totalmente desconhecidos, se envolvem em longas discussões, comumente cheias de ofensas e conclusões precipitadas sobre o outro lado.

Não é preciso ir muito adiante para perceber o quão infrutíferos são esses “diálogos” – além de serem extremamente desgastantes. Observo que as pessoas têm se afastado cada vez mais umas das outras pela dificuldade de se abrir para realmente ouvir e compreender qualquer ponto de vista diferente do seu. Com isso, a solidão, que já é uma consequência inevitável da necessidade de distanciamento social, em maior ou menor grau, tende a ser potencializada. Em suma, estamos mais isolados do que realmente precisaríamos estar pelo fato de que estamos perdendo a condição de dialogar. E isso está potencializando um tipo de desgaste emocional que, talvez, pudesse ser evitado.

Assim, gostaria de concluir convidando você, novamente, a olhar para si e a avaliar como tem reagido nesses novos tempos que estamos vivendo. Será que, quando você acessa informações – e, especialmente, quando se manifesta diante delas – tem sido um convite à aproximação ou ao distanciamento dos outros em geral? E, ainda mais importante que isso: essas reações têm lhe feito bem? Ou têm se tornado uma espécie de obsessão raivosa, que lhe faz chegar ao final do dia emocionalmente exausto? Será mesmo que tem valido a pena?