Depressão não é frescura

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Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

O título da presente matéria pode parecer extremamente óbvio para nós, que somos profissionais de Saúde Mental, ou mesmo para aqueles que têm contato direto com a Depressão – por diagnóstico próprio ou de alguém próximo. Apesar disso, e de vivermos a era do acesso facilitado à informação, concepções preconceituosas e distorcidas sobre aqueles que sofrem de Transtornos Depressivos ainda são muito comuns. De acordo com um estudo global conduzido pela Universidade Estadual de Ohio (EUA), o Brasil tem liderado os índices de Ansiedade e Depressão durante a pandemia de Covid-19(¹). É por este motivo que precisamos, urgentemente, falar sobre o tema.

Em linhas gerais, de acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), um Episódio Depressivo é caracterizado por “um rebaixamento do humor, redução da energia e diminuição da atividade. Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração, associadas em geral à fadiga importante, mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral problemas do sono e diminuição do apetite. Existe quase sempre uma diminuição da autoestima e da autoconfiança e frequentemente ideias de culpabilidade e ou de indignidade”. (²)

Pode ser que tenha lhe ocorrido que todos nós podemos nos sentir assim em algum momento da vida. De fato. Porém, um dos equívocos mais comuns das pessoas em geral é não compreender a intensidade desses sintomas durante um Episódio Depressivo – ainda mais ao ocorrerem de forma combinada. Eles podem ser verdadeiramente incapacitantes, além de se estender por longos períodos, o que nos leva a outras distorções de compreensão bastante recorrentes: a crença de que alguém nessa condição não deseja realmente melhorar, que lhe falta fé suficiente ou uma ocupação efetiva.

Pois bem. Façamos um exercício de imaginação. Tente se colocar no lugar de uma pessoa que experimenta, diariamente e à revelia de sua vontade, tristeza profunda (mesmo sem qualquer motivo aparente), cansaço extremo, desânimo constante e falta de sentido/perspectivas para a própria vida, somados à crença de não ser importante e à convicção de ser um fardo para aqueles que ama. Você realmente acredita que seja uma escolha viver assim? Que basta força de vontade ou se distrair um pouco para transformar a situação? A resposta é não.

Um dos grandes desafios do Transtorno Depressivo é que suas próprias características tendem, justamente, a minar o que poderia combatê-lo: na maioria dos casos, falta energia ao paciente para buscar ajuda ou há uma crença inabalável de que não existe uma saída. Por isso é tão importante compreendê-lo: para não acabar por piorar a situação com falas absurdas como “mas você precisa se esforçar também!”, “isso é falta de Deus, aposto que você tem rezado pouco” ou “se tivesse uma pia de louça pra lavar, duvido que você estaria assim entregue”. Tudo o que alguém em Depressão não precisa é de mais um julgamento externo. Acredite, ele ou ela possivelmente já está se recriminando o suficiente.

Como, então, ajudar? Antes de qualquer coisa, aprendendo a ouvir sem julgar e, principalmente, contendo a ânsia de oferecer soluções apressadas e imediatistas. É preciso entender que alguém que sofre de um Transtorno Depressivo possivelmente compreende as possibilidades de melhora, mas não consegue acessá-las afetivamente e, consequentemente, colocá-las em prática. Portanto, tenha paciência. Seja presente, acolhedor e respeitoso com os limites do outro. E, por fim, seja a ponte para que a pessoa acesse o atendimento especializado de um psicólogo e de um médico psiquiatra. É provável que ela não consiga dar esse passo sozinha.

Agora, caso seja você que está lendo quem está passando por um Episódio Depressivo, permita-me fazer sugestões não muito diferentes. Procure não se julgar de forma tão implacável, tente ser acolhedor consigo mesmo e respeite seus limites. Mas também busque ajuda, mesmo que pareça que não há muito a ser feito. Talvez você não consiga acreditar em uma melhora, mas pode ser incrível ter alguém que, ao menos por enquanto, acredite por você e se disponha a percorrer esse caminho ao seu lado.

(¹) https://www.mdpi.com/1660-4601/18/5/2686
(²) http://www2.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f30_f39.htm