Há pessoas do outro lado da tela

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Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

Não é de hoje que a maioria dos meus textos traz, de diferentes formas, o convite à auto-observação e, também, ao exercício de se colocar no lugar do outro. Especialmente nesse momento, em que o distanciamento social vem se prolongando e grande parte do que vivíamos presencialmente tem acontecido no âmbito virtual, parece-me urgente lançar luz a um fenômeno que tem me chamado atenção: será que estamos nos esquecendo que, do outro lado da tela, há pessoas como nós?

Pode parecer um questionamento um tanto quanto sem sentido, afinal, nas incontáveis lives que têm povoado os feeds das redes sociais, nós estamos vendo o outro em tempo real e, inclusive, sentindo-nos incrivelmente próximos dele, não é mesmo? É como se aquele artista ou profissional que tanto admiramos se tornasse nosso amigo íntimo! Acredito que, em parte, isso também acaba contribuindo justamente para o fenômeno que estou descrevendo: ao nos sentirmos tão próximos dessas pessoas, acreditamos que elas se resumem àquela parcela que estamos enxergando naquele momento e passamos a nos relacionar como se esse fosse o todo.

Ora, se eu sinto que sei tudo sobre o outro do lado de lá da tela, é natural que eu forme opiniões sobre ele e sobre as situações que, de alguma forma, o envolvem. O problema é quando nos esquecemos de que se tratam, justamente, de percepções pessoais e passamos a atribuir a elas um status de verdade absoluta. É essa condição que me parece intimamente relacionada aos julgamentos que, cada vez mais, estão ganhando espaço nas redes.

Além de avaliações diretas – quando pequenas atitudes de alguém se tornam palco de grandes debates, como se tivéssemos domínio total das motivações íntimas do outro para ter agido de tal maneira e, portanto, pudéssemos determinar se foi correto ou não e, consequentemente, julgá-lo – avalio que esse fenômeno também é uma das raízes das grandes polêmicas que vêm acontecendo. É claro que temos o direito de ter nossas opiniões e até mesmo de expressá-la em espaços dedicados a isso – mas será que o status de verdade absoluta que atribuímos a elas sem perceber (conforme mencionei acima) não vem se sobrepondo à empatia? O colocar-se no lugar do outro parece estar fora de moda e os próprios pensamentos a respeito – ou o que se faria numa situação semelhante – têm se manifestado de forma implacável. Não raro, as redes sociais se parecem mais com tribunais do que com um espaço destinado à interação saudável e prazerosa entre seus usuários.

Essa dinâmica tem levado a situações extremas, como, recentemente, sugerirem o suicídio de uma jovem por considerarem que ela seja responsável por algo que fugiu totalmente ao seu controle; ou toda a fúria com que foram debatidos os rumos da vida de uma menina de dez anos, vítima de sucessivas vivências de violência. Será que quem propôs essas “soluções” chegou, por um segundo, a se colocar no lugar dessas duas pessoas que citei como exemplo? Será que consideraram que elas poderiam ser radicalmente afetadas por seus julgamentos implacáveis? Creio que não. E que, por este motivo, é extremamente necessário resgatarmos a noção de que, do outro lado da tela, há pessoas passando por situações que não temos como imaginar, justamente por só ter acesso a uma parcela dos fatos.

Concluo, como de costume, fazendo um convite a você que leu até aqui. É natural que, sendo bombardeados por informações como estamos sendo, vez ou outra acabemos reagindo de forma mais impulsiva ou indignada. Tudo bem. Mas que tal passarmos a observar com mais atenção as nossas atitudes? E nos questionar se não estamos agindo justamente como aqueles que apontam o dedo para o outro, sem sequer se importar em compreender a sua dor? Autoconhecimento – e, sobretudo, exercício de empatia – também é isso. E é urgente buscar por ambos!