Homens: expectativas sociais, valores e conflitos

603 0

Se, na matéria da edição passada, meu foco recaiu sobre as mulheres e a dificuldade que, não raro, enfrentam ao lidar com a liberdade de escolha conquistada ao longo das últimas décadas, nada mais justo que destinar o presente espaço aos homens – até porque, um comentário, particularmente, me chamou atenção: “é, mas ser homem hoje em dia também não anda nada fácil, não!”.

De fato. Não foi só para as mulheres que as coisas mudaram nos últimos tempos. Penso que possamos afirmar que, hoje – felizmente – aos homens também é dada liberdade de escolha muito maior para que sejam verdadeiramente a pessoa que quiserem ser. Não devemos, porém, ser ingênuos de acreditar que isso aconteça sem percalços. Afinal, as concepções tradicionais ligadas, especialmente, à questão da força e da racionalidade como medidas do valor de um homem ainda perpassam o imaginário social e, não raro, emergem – velada ou explicitamente – nas críticas feitas àqueles que, de alguma forma, fogem desse padrão.

As mesmas pessoas que aplaudem o homem de sucesso no meio artístico, por exemplo, o criticam por, em sua vida pessoal, ser “sensível demais”; ou, talvez, valorizem tremendamente o pai presente na vida dos filhos e que divida igualmente as responsabilidades da casa com a esposa, mas questionem o fato de não assumir integralmente o papel de provedor financeiro da família – e assim por diante. Parecem, essencialmente, esperar que o homem ocupe cada vez mais espaços dos quais antes se mantinha alheio, porém sem deixar de atender às exigências do que sempre foi sua “atribuição”.

Não é de se espantar que, em meio a tantas expectativas contraditórias e valores divergentes, cada vez mais homens se sintam perdidos e em conflito com as próprias escolhas. A quebra de paradigmas, por si só, é difícil – administrá-la tendo que se equilibrar entre as vertentes que a exigem e as que a criticam é ainda pior. Mas, afinal, o que fazer com isso?

Como sempre, defendo que não existe “bússola” mais precisa para se orientar do que os próprios sentimentos. Ninguém melhor do que você mesmo para dizer com qual papel se identifica mais. Referenciais externos podem, sem dúvida, ampliar perspectivas e tirar-nos de nossa zona de conforto. Guiar-se, porém, exclusivamente por eles é correr o risco de se distanciar em demasia do que realmente importa e, depois, não encontrar o caminho de volta.

Para tanto, porém, é preciso se conhecer. Admitir sentimentos para si próprio. Não ter medo de encarar o seu reflexo no espelho. Talvez, enfim, esse seja o maior percalço do caminho, mas posso lhe garantir: quanto mais próximos ficamos de nós mesmos, menos sentido fazem as críticas de quem não conhece nossa verdade.