Isolamento Social: o que você tem aprendido sobre si mesmo?

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Desde que foram adotadas, em nosso país, as medidas de isolamento social com o objetivo de controlar o ritmo da contaminação pelo novo coronavírus, incontáveis textos sobre o assunto vêm sendo publicados, diariamente. Ciente disso, meu objetivo com a presente matéria não é o de oferecer mais uma lista de dicas ou “receitas” para ajudar a lidar com esse momento e sim propor uma reflexão que cada um, a sua maneira, possa fazer de forma pessoal e singular.

Creio que seja razoável dizer que, em menor ou maior grau, todos nós fomos pegos de surpresa com as mudanças que a epidemia da Covid-19 trouxe ao nosso cotidiano. Subitamente, os lugares que estávamos habituados a frequentar – e/ou a forma de fazê-lo – deixaram de ser opções. Foi necessário adaptar toda a nossa rotina a uma série de novos hábitos que, não raro, nos parecem estranhos e desgastantes. Tivemos que nos distanciar das pessoas que estavam sempre por perto – muitas vezes, daquelas que nos são mais importantes. Planos traçados, cuidadosamente, precisaram ser abandonados ou, no mínimo, adiados. A grande maioria tem precisado repensar seus moldes de estudo, trabalho e possibilidades de renda. Outros tantos têm experimentado insegurança, medo, revolta.

Como resposta a essa desestruturação, chamemos assim, é natural que surjam, rapidamente, propostas de solução. Utilizar esse tempo para estudar, aprender coisas novas, aprimorar habilidades. Cuidar do corpo e da alimentação. Fazer aquela faxina na casa que vem sendo adiada há tanto tempo. Colocar os filmes ou sua série favorita em dia. Passar mais tempo de qualidade com aqueles que moram com você. Aproveitar para se reinventar profissionalmente, caso esteja insatisfeito. E por aí afora. São como receitas, conforme mencionei no início, que oferecem novas estruturas para um momento em que tanta coisa parece fora do lugar.

Naturalmente, alguns dos itens que mencionei podem fazer bastante sentido. Talvez você até já tenha colocado vários deles em prática. E tudo bem. O problema é quando tais sugestões ganham um caráter imperativo e, não segui-las, passa a ser sinônimo de desperdiçar o tempo. Algo como “não viver a quarentena da forma correta” – o que é extremamente injusto, uma vez que desconsidera singularidades e limites, do ponto de vista emocional, que ninguém conhece tão bem quanto nós mesmos.

É por essa razão, basicamente, que a reflexão que eu proponho aqui vai na contramão dessas generalizações. O questionamento do título – “o que você tem aprendido sobre si mesmo?” – é um convite para deixarmos um pouco de lado toda essa enxurrada de informações e olhar para nós. É esperado haver muita angústia e medo envolvidos? Claro! Nunca estivemos tanto em contato com a imprevisibilidade da existência como agora. Mas em que direção você se movimenta frente a isso? Da ansiedade e da busca por retomar o controle? Da tristeza e do desânimo, que te impossibilitam de fazer muitas coisas que você gostaria? Da negação, que te faz questionar até que ponto tudo isso é real e necessário? Da raiva, que te leva a brigar com a situação ou mesmo com todos aqueles que estão reagindo diferente de você? De tudo isso um pouco, a depender do momento?

Trata-se de uma compreensão bastante consensuada, no universo da Psicologia, que o primeiro passo para lidar com um sentimento é reconhecê-lo. Pode ser, porém, que fazer isso sozinho, em momentos de crise como esse, seja muito difícil. E tudo bem também, viu? Lembre-se de que essa não é uma nova receita.

Porém, por mais distantes, fisicamente, que seja necessário ficar nesse momento, isso não precisa nos impedir de estar juntos de outras formas. Não hesite em falar sobre o que você tem sentido com pessoas em quem você confia – pode ser que elas sintam o mesmo e não se abram. E, caso você realmente identifique que suas forças estão acabando, não deixe de procurar ajuda profissional. Ela também tem acontecido em novos formatos, online, mas pode ser igualmente efetiva. O mais importante, no final das contas, talvez seja a gente não se perder do nosso modo próprio de ser, independente de todas as formas que se perderam do lado de fora!