Luto e Esperança

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Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

A temática escolhida para a presente matéria partiu de um questionamento crescente que tenho observado em grande parte das relações interpessoais: como lidar com a dor de tantas perdas nos últimos meses? Refiro-me, naturalmente, à morte em si, materializada na figura de amigos, familiares, pessoas públicas admiráveis que a pandemia de Covid-19 tem levado em número considerável. Mas não apenas. São emoções que também se manifestam diante da perda de possibilidades, de referenciais, de sonhos e planos. E uma grande parte de nós tem se percebido às voltas com uma sensação de simplesmente não saber como seguir em frente depois de tudo o que se transformou à revelia da nossa vontade. Vamos falar um pouco sobre isso?

Luto é o nome dado ao sentimento de profundo pesar causado pela morte de alguém ou por perdas e rompimentos significativos. Você, muito provavelmente, já sabia disso e usa essa expressão com frequência. O luto, porém, consiste em um processo complexo, vivenciado de forma particular e que pode durar muito tempo, por depender de diversos fatores. Existem muitos estudos na área que buscam não apenas a sua compreensão, mas também propor estratégias e possibilidades de superação.

A psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross, uma das maiores referências no assunto, dividiu o processo de luto em cinco fases principais: a negação, quando simplesmente não conseguimos acreditar que a perda aconteceu e, não raro, agimos como se de fato ela não fosse real; a raiva, quando nos revoltamos, sendo comum inclusive atacar pessoas ou fatos relacionados à causa da dor; a negociação (ou barganha), que consiste numa tentativa de reverter ou relativizar o que aconteceu, buscando amenizar o sofrimento; a depressão, que é a profunda tristeza que costuma estar relacionada à constatação da inevitabilidade da perda em questão; e, por fim, a aceitação, que é, em linhas gerais, a condição de ressignificar a situação e seguir em frente.

Naturalmente, trata-se de uma proposição teórica que não necessariamente abarca a experiência de todas as pessoas enlutadas, nem deve ser entendida como uma “receita” a ser seguida na sequência “correta”. Mesmo assim, considerei relevante resumi-la aqui para ampliar a compreensão do que talvez você, que está lendo, possa estar sentindo e também para embasar a nossa reflexão. Afinal, passar por todo esse processo não é fácil e, mesmo se chegarmos ao estágio da aceitação – o que é totalmente diferente de não sentir falta de quem ou do que foi perdido, acho importante ressaltar – me parece razoável afirmar que muito provavelmente seremos, de alguma forma, bastante afetados por ele.

Nesse sentido, gostaria de me ater a um elemento especial que tende a acompanhar as perdas significativas de que estamos tratando aqui: a falta de sentido. Diante da morte, é bastante comum questionarmos, se não o sentido da vida em si, ao menos a forma como a estamos vivendo. Diante de rompimentos ou perdas de outra ordem, parece inevitável questionar o quanto e de que forma nos dedicamos àquela pessoa ou situação. Muitas vezes, porém, a dor nos impede de ir além e transformar esses questionamentos, permitindo que sigamos em frente.

Talvez você esteja se perguntando se isso é mesmo possível, especialmente se estiver em meio a um processo de luto nesse exato momento. Simplesmente ouvir que “vai passar” e que é preciso “ser forte” não costuma ser nada efetivo. Porque não é tão simples. Porque “passar” não é exatamente o termo. Talvez, “ficar mais fácil de lidar” seja mais apropriado. Mas mesmo isso depende – e muito – de como iremos vivenciar o processo de nos despedir de quem (ou do que) foi embora.

Pode parecer contraditório, mas o passo mais importante é se permitir viver a dor e não “colocá-la debaixo do tapete”. Se parecer muito difícil, buscar a ajuda de um profissional de saúde mental pode ser necessário. E tudo bem. Aos poucos, o sofrimento poderá dar espaço aos questionamentos – especialmente aqueles que mencionamos, ligados ao sentido – e serão eles que possivelmente guiarão você nesse percurso de superação. Muitas vezes, é preciso perceber como a vida é efêmera e fugaz para que possamos aprender a vivê-la de forma efetivamente significativa. E essa, sim, talvez seja a maior das contradições: perder a vida para ganhar a vida.

Por isso, encerro com a noção de esperança, que compõe o título. É ela que costuma estar no final desse percurso, apesar de tudo. É ela que nos permitirá, dia após dia, recomeçar e, principalmente, fazer escolhas diferentes. Talvez tudo o que está acontecendo sirva, de fato, para que possamos repensar o que é realmente importante para cada um de nós. Mas, entenda: esse é um processo singular e é preciso buscar em você essas respostas, não em todas as propostas “prontas” que temos visto por aí. Também do ponto de vista emocional, talvez seja hora de nos recolher para que, só depois, possamos nos reencontrar, não é mesmo?