Mas a psicoterapia não está funcionando!

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Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

Escolhi, como temática para a presente matéria, a compreensão que identifico ser bastante comum às pessoas que não estão familiarizadas com a psicoterapia: a de que ela “não está funcionando”. Acredito que isso se relacione intimamente às expectativas criadas quando se busca ajuda psicológica, geralmente voltadas à urgência por melhora e diminuição da angústia, bem como ao desconhecimento acerca de como um processo dessa natureza tende a caminhar.

Quem faz, ou já fez, psicoterapia sabe bem que a mudança é um processo muito mais complexo do que pode parecer. Ter, sistematicamente, o espaço para expressar as próprias dores, por si só pode trazer sensação de alívio e talvez até algum tipo de melhora imediata. Não raro, porém, os comportamentos e vivências emocionais que causam sofrimento mostram-se relacionados a um modo de ser que se consolidou ao longo de anos ou, no mínimo, emergiu como resposta a todo um contexto que nem sempre pode ser transformado.

Nesse sentido, o caminho a ser percorrido por um processo psicoterapêutico está, invariavelmente, ligado à singularidade daquele que o vivencia. Depende, portanto, de uma infinidade de questões que, inclusive, podem se mostrar muito diferentes das que foram inicialmente eleitas como os “problemas” a serem resolvidos. Em outras palavras, depende do tempo necessário para que a pessoa compreenda vivências pessoais que antes não eram tão claras e, muito mais que isso, fortaleça-se para transformá-las – ou, ainda, fazer as pazes e deixá-las como estão.

Por esta razão acredito ser tão comum que as pessoas muito próximas, mas que, ainda assim, estão de fora desse processo (pais ou cônjuges, por exemplo), não consigam visualizar de que forma ele está funcionando. Além de não acessarem essa singularidade, que é tão pessoal, muitas vezes têm suas próprias expectativas acerca de quais são as mudanças necessárias e da velocidade em que elas devem acontecer. Em sua ânsia por ajudar, podem acabar por desconsiderar que o processo é do outro e, portanto, deve acontecer à sua maneira e a seu tempo.

Isto posto, me parece totalmente razoável afirmar que a melhor pessoa para avaliar se a psicoterapia está funcionando ou não deve ser a própria pessoa que está em psicoterapia. “Mas e no caso de crianças e adolescentes?”, talvez você esteja se perguntando. Defendo que a lógica deve ser a mesma, apenas adaptada às formas de expressão dos pequenos: que os pais estejam atentos às demonstrações do filho em relação à vivência psicoterapêutica, relativizando alguns de seus comportamentos de oposição característicos da idade – que apareçam em relação a toda e qualquer experiência, por exemplo.

Se, ainda assim, você estiver em dúvida, sugiro que procure conhecer e conversar com o profissional responsável pelo atendimento. Desde que haja ciência e autorização da pessoa que está em psicoterapia – seja ela criança, adolescente ou adulta – este pode ser um espaço importante para que você expresse suas preocupações, encontre outras formas de ajudar e, muito possivelmente, descubra que a psicoterapia está, sim, funcionando – muito mais do que você pensava!