O impacto da pandemia sobre a infância e a adolescência: e agora?

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Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

Dando continuidade às reflexões que temos feito nos últimos meses sobre os desdobramentos e impactos da pandemia de Covid-19, na presente matéria, consideramos importante lançar um olhar especificamente sobre as crianças e adolescentes. É bem possível que você tenha que lidar com essa questão de forma bastante concreta no seu dia a dia, direta ou indiretamente, e, por este motivo, vale a pena se demorar um pouco mais sobre ela, não é mesmo?

Quando, no início de 2020, fomos lançados ao desafio de repensar todo o nosso modelo de vida, trabalho, estudos e, principalmente, convívio social, muito foi falado sobre as “perdas irreparáveis” para os pequenos e jovens, não raro como um argumento para flexibilizar as normas sanitárias que precisavam ser seguidas. De fato, houve perdas. Muitas crianças enfrentaram atrasos e/ou retrocessos em seu desenvolvimento global e na aprendizagem, desenvolveram comportamentos agressivos, depressivos ou ansiosos, intoxicaram-se por telas. Adolescentes, idem – somando-se ainda o peso da falta do contato frequente com o grupo de pares, tão importante para essa faixa etária. E agora, que tem se mostrado mais seguro retomar as atividades graças ao avanço da vacinação, o que podemos fazer diante desse cenário?

Antes de qualquer coisa, não se desesperar nem adotar uma postura fatalista – como infelizmente tem acontecido da parte, inclusive, de alguns profissionais. Estamos tratando de uma realidade mundial. Isso significa que todas as crianças e adolescentes desta Era passaram pela experiência, em maior ou menor intensidade, e, consequentemente foram impactadas por ela. Tendo isto em mente, entendo que essa variável deverá integrar qualquer interpretação que faremos daqui pra frente. Por exemplo: se antes era esperado que crianças de 3 anos já tivessem determinado domínio da habilidade de fala, agora é preciso um olhar cuidadoso e contextualizado, caso esse marco não tenha sido atingido. Trata-se, essencialmente, de repensar as expectativas que vivemos lançando sobre os pequenos.

Naturalmente, isso é muito diferente de banalizar todos esses impactos. É fundamental observar com atenção e trocar impressões com professores e pediatras, inclusive para identificar se há necessidade de atendimento interdisciplinar – com psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, etc. – que atue para auxiliar que a criança ou adolescente elabore dificuldades que, porventura, esteja enfrentando.

Não devemos perder de vista, porém, a capacidade de superação e adaptação, que também é uma das características centrais da infância e adolescência. Testemunhei a surpresa de muitas pessoas acerca da capacidade que pequenos e jovens demonstraram de compreender, aceitar e respeitar os limites que a pandemia nos impôs – superior, inclusive, à de muitos adultos. É importante confiarmos que será, justamente, essa mesma condição que permitirá que eles assimilem as tantas marcas que esses tempos deixaram.

Isto posto, quero te convidar a olhar novamente, com bastante atenção, para as crianças e adolescente que convivem com você. É possível que você possa ser uma ponte para ajudá-los, mas também há grandes chances de que eles tenham algo a ensinar sobre o melhor caminho para percorrermos de agora em diante, em direção a um mundo que faça mais sentido.