O Luto na Pandemia

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O processo de luto abarca situações relacionadas ao contexto de perda em geral, seja o falecimento de um ente querido, a mudança de um papel social, ou a perda de uma possibilidade de futuro. É a sensação de que “algo nos foi tirado”, algo que era tão nosso que não nos deveria, absolutamente, ter sido tomado de nós. Ou como disse Colin Parkes, um dos principais autores e pesquisadores da contemporaneidade sobre o tema: “O luto é o preço do amor”.

Após a segunda guerra mundial, multiplicaram-se as pesquisas sobre o estresse pós-traumático e o luto. Acredita-se que a pandemia do novo coronavírus produz uma nova leva de estudos sobre esses temas, além de provocar uma grande mudança social, na medida em que o rompimento de vínculos humanos ganhou atenção.

Um levantamento recente sobre o tema diante de outros surtos de doenças infecciosas, como a cólera e o ebola, aponta que o isolamento dos doentes e a impossibilidade de realizar os rituais pós-morte específicos a cada cultura causam impacto negativo no processo de luto de uma comunidade. Ainda não temos estudos robustos sobre o real efeito do novo coronavírus nesse quesito e no chamado luto complicado – quando esse processo se torna um problema de saúde. Mas algumas pesquisas sugerem um aumento na intensidade e no prolongamento dos sintomas vivenciados pelo luto.

Não dizemos adeus na mesma forma que antes. Não podemos oferecer o amparo presencialmente. Não temos mais o olho no olho que acolhe e diz que, independentemente do que acontecer, ficaremos ao seu lado. Como familiares, a sensação de impotência é devastadora.

Com o avanço da pandemia mais de 95.000 vítimas fatais de coronavírus oficialmente confirmadas no Brasil, o tema passou a ser parte do cotidiano de muitas famílias brasileiras.

“Mais gente tem perguntado sobre agravantes dessa pandemia: de não podermos estar juntos, de não podermos nos despedir”, diz Maria Helena Pereira Franco, coordenadora do laboratório de estudos e intervenções sobre o luto (LELu) da PUC-SP e doutora em psicologia.

Novos Rituais – A dor de muitas outras famílias, que não puderam visitar seus entes queridos nas UTIs e que têm sido forçadas a realizar enterros e velórios apressados, com caixões fechados. Nessas circunstâncias, os próprios adultos estão mais fragilizados e vivendo processos de luto mais difíceis. Diante disso, a psicóloga Maria Helena sugere a construção de novos rituais de despedida que amenizem a nova realidade.

“Me contaram de um enterro em que os amigos, sem poder participar da cerimônia, fizeram uma fila com seus carros na frente dos cemitérios e acenderam seus faróis. Como se dissessem ‘não pudemos entrar, mas estamos aqui’. ”

Crianças – “Com as crianças, é preciso falar sobre o assunto sendo atento às frases de seu desenvolvimento. Algumas pessoas acham que ‘as crianças não entendem’ (a morte). Elas não entendem como adultos, mas sim, entendem. E é bom conversar sobre isso com elas. ”

Nem sempre teremos respostas e, embora seja uma conversa difícil e dolorida, é necessária para não gerar sensação de medo, culpa e isolamento nas crianças, inclusive nas menores, para quem a morte não é algo tão concreto.

“Talvez ela se assuste ou fique temerosa, mas é bom que a gente possa falar sobre a morte, para que a criança saiba o que fazer com o medo que está sentindo e tenha um canal confortável de conversa com um adulto”, diz a psicóloga defendendo que não se evite a palavra morte, “para não transformar em tabu algo que acontece com todo mundo. É o corpo não funcionando direito”.

A depender de crenças religiosas da família (ou ausência delas), nem sempre haverá respostas para todas as dúvidas das crianças, como o que acontece depois da morte.

“Não há problema algum em dizer à criança: ‘adoraria ter essa resposta, mas não tenho’. Ou então ‘vamos tentar pensar juntos em algo que faça sentido para a agente? ‘. “

Ao mesmo tempo, a recomendação é falar de modo concreto e cuidar para “não avançar o sinal” e não dar informações em excesso, que acabem gerando ainda mais angústia.

“O adulto pode responder às dúvidas das crianças à medida que elas forem surgindo, mas sem ir além destas perguntas. Talvez as maiores, com 10 anos ou mais, queiram saber as tecnicalidades de morrer – por que a pessoa não está mais respirando, por exemplo”, diz.

“Metáforas, como ‘ele descansou’, não ajudam. Porque a criança pode achar que em algum momento a pessoa querida vai parar de descansar. É bom, então, usar as palavras reais: assim como o bebê nasce, a pessoa morre. Também não há problema com a pegada religiosa de muitas famílias, mas é preciso que a criança entenda que, para virar uma estrelinha, a pessoa precisa morrer antes. “

Para as crianças, rituais lúdicos também podem ajudar no luto e na despedida, agrega. “Pode se escrever uma carta à pessoa querida ou fazer uma caixa de memórias. Nesse processo as crianças irão conhecer histórias da sua família. “

Chorar com a criança ou na frente da criança também é parte deste momento coletivo tão doloroso, prossegue a psicóloga.

“Chorar é algo que as pessoas tristes fazem. Ao chorar junto, a criança vai entender que (a dor ou saudade) que ela própria está sentindo é compreensível. Às vezes o adulto quer proteger a criança e engole o próprio choro, mas está todo mundo triste e a criança precisa entender. É a diferença entre um ambiente que apoia (o processo de luto) ou o esconde”, opina a especialista.

“E não dá nada de errado em o adulto dizer ‘hoje estou triste e quero ficar quietinho’ ou ‘hoje não estou legal para conversar, preciso me entender melhor’. É honesto e legítimo. A mensagem é de que a morte é muito desorganizadora, mas temos recursos individuais e coletivos para lidar com ela. “

A Nova Franca Assistência familiar segue em luto por todas as mortes causadas pelo novo coronavírus no Brasil, em especial aos mais de 40 óbitos ocorridos em nosso município. Lembramos que nosso cuidado sempre foi com a vida, tratando a despedida de uma forma digna e respeitosa, o que tem sido algumas vezes impossibilitado em virtude dos protocolos de segurança dos sepultamentos em casos suspeitos ou confirmados de Covid-19. Entretanto, seguimos cumprindo nosso papel com profissionalismo e carinho com todos os Francanos que necessitarem através de nosso escritório na Rua Monsenhor Rosa, 2272 – Centro, ou através do telefone (16) 3403-3000.