O novo Coronavírus

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Especialista em Clínica Médica UFU Uberlândia, Medicina Intensiva(AMIB), Nefrologia (S.B.N.), Infectologia (SBI), Membro também da sociedade Brasileira de Hepatologia, Professor Clínica Médica – Medicina Unifran, Médico Regional (São Francisco).

O primeiro caso do COVID 19 – nome oficial da doença causada pelo novo Coronavírus-, ocorrido no Brasil, foi detectado em São Paulo, no dia 26 de fevereiro. Entretanto, ela já chegou há 114 países em cinco continentes, até o fechamento desta edição. O vírus que surgiu na China é apontado como a variação de uma família já conhecida pelos cientistas. A OMS emitiu o primeiro alerta para a doença em 31 de dezembro de 2019, depois que autoridades chinesas notificaram casos de uma misteriosa pneumonia na cidade de Wuhan, metrópole chinesa com 11 milhões de habitantes, sétima maior cidade da China e a número 42 do mundo. Infecções pelo novo coronavírus crescem e preocupam autoridades e população em todo o mundo.

A revista Qualitá esteve com o médico infectologista Dr. Rubens Pereira Santos um dos mais renomados nomes na área em nossa cidade, que concedeu entrevista para esclarecimentos a respeito.

1) A OMS declarou o novo Coronavírus como “emergência de saúde internacional”. Qual a situação do Brasil, hoje, já que estamos diante de alguns casos confirmados?

Realmente a OMS declarou o novo Coronavírus como emergência. Ela já tinha feito isso com a Poliomelite, com a H1N1, com o Zika, com o vírus Ebola, e agora com o Covid 19. Como é do conhecimento de todos, o Brasil agora faz parte dos mais de 114 países que tem coronavírus, com 73 casos confirmados em vários Estados e vários suspeitos, número esse que vai aumentar rápido. Franca-SP ainda não possui nenhum caso confirmado.

2) O Coronavirus que recebeu o nome de COVID 19 da OMS é um vírus novo?

Nós conhecemos o Coronavírus desde a década de 60. São sete coronavírus que podem afetar o ser humano. Quatro deles são tipos mais comuns de vírus, sendo que os outros três, este último inclusive, causam quadros mais graves. Um provocou a síndrome respiratória aguda na China em 2002, conhecida como SARS. Naquela oportunidade, ocorreram 916 óbitos. Depois em 2012 ele sofreu uma nova mutação e sobretudo no Oriente Médio veio a matar 863 pessoas, aproximadamente. Agora o vírus volta provocando númeras mortes. Na verdade, é o mesmo vírus que sofreu uma mutação. Neste sentido trata-se de um vírus novo que vem provocando toda essa preocupação mundo afora.

3) Existe algo que pode ser feito para reforçar a imunidade e evitar ser acometido pelo vírus?

Então, sempre essa questão vem a tona quando estamos diante de epidemias graves. Podemos sim. Claro que as pessoas mais sadias vão adoecer menos e se adoecerem a doença será menos grave. O Covid 19 tem pego sobretudo pacientes que já são doentes crônicos, como os pneumopatas, cardiopatas, hepatopatas, assim por diante, e pessoas que estão acima de 60, 70, 80 anos, onde a doença acontece na sua forma mais grave. Com relação aos meios para evitar a doença que estão sendo propagados, como o uso do chá de erva doce, do mel, das vitaminas D e C, é  importante esclarecer que não há nenhuma comprovação científica. Importante as pessoas estarem bem de saúde e com a vacinação em dia.

4) Como ele age no organismo? Os sintomas são imediatos?

O vírus age no aparelho respiratório. Ele consegue aderir ao aparelho respiratório inferior. Esse vírus é igual a uma pirâmide, como acontece na maioria das epidemias, a grande maioria dos casos são ÓLIGOSSINTOMÁTICOS, ou seja, poucos sintomas e leves, no entanto, alguns casos podem ser graves e provocar pneumonia, insuficiência respiratória, infecção bacteriana secundária, choque séptico e infelizmente o óbito também. Importante reforçar que na grande maioria dos pacientes ele se comporta como uma gripe simples e o quadro é leve. Somente os pacientes mais idosos, aqueles predispostos, os doentes crônicos, como já dissemos, vão correr um risco maior. Isso é importante ficar muito claro para evitar pânico e medo.

5) Em suspeita de ter contraído o Coronavírus, como proceder?

Muitas pessoas estão desorientadas, mesmo não fazendo parte do grupo de risco. Importante lembrar que a suspeita hoje é sobre a pessoa que fez uma viagem para os 38 países que estão na lista de risco. Naturalmente que esta lista vai aumentar com o tempo. Então, se a pessoa veio desses países, ou se ela teve contato com alguém que tenha viajado para esses lugares e que tenha sido considerado um caso suspeito ou confirmado, ela deve observar se vai desenvolver algum sintoma respiratório como tosse, fadiga, dor de garganta e febre. Se ela tiver esses sintomas, deve procurar imediatamente um médico. Até lá, deve-se evitar multidão, lavar bem as mãos, usar álcool gel, fazer uso de máscara, evitar aglomeração e, principalmente procurar um profissional de saúde.

6) O Coronavírus é mais virulento ou agressivo do que outros vírus?

O Coronavírus não é mais virulento do que a maioria desses vírus que estão por aí, não. Se a gente considerar o coronavírus que deu origem ao SARS – a Síndrome Respiratória Aguda em 2002, percebemos que a letalidade foi mais ou menos de 10%. Se avaliarmos o coronavírus que deu origem ao MERS – Cov, sobretudo no Oriente Médio em 2013, a letalidade foi mais ou menos 35%. Hoje, a letalidade desse novo coronavírus tem sido mais ou menos 2,5 a 3,0 % na China, e 1,5 % ou menos fora da China, principalmente nos idosos.

7) Quais as orientações para os profissionais de saúde que estão na linha de frente, em contato com os pacientes?

Os profissionais de saúde estão à frente do combate e são muito importantes. Nos primeiros 138 relatos de casos que a China promoveu, 29% eram profissionais de saúde. Daí a importância de serem bem treinados e terem a cautela necessária que exige a colocação de EPI – Equipamento de Proteção Individual, que inclui gorro, máscara, óculos de proteção, luvas, avental, quando houver indicação, mas no primeiro momento o principal é que tenham ciência da importância da máscara que pode ser inicialmente cirúrgica e depois especial, sempre lavar as mãos e fazer uso do álcool gel. Os profissionais de saúde vêm sendo treinados com todo rigor. Necessário que sejam muito valorizados e respeitados.

8) Franca está preparada para tratar pacientes portadores da doença?

Eu acredito que o Brasil como um todo está preparado para cuidar desse problema. O SUS do Brasil é muito bom, o ministro da Saúde está muito atento. As unidades de saúde da cidade de Franca contam com excelentes profissionais, então é claro que vamos enfrentar dificuldades naturais, mas a cidade está sim preparada para cuidar e atender os pacientes portadores do Coronavírus, caso necessário.

9) Há relatos de cura de pessoas infectadas. Já existe tratamento para combater o COVID 19?

Um tratamento oficial ainda não temos, no entanto, existem algumas drogas oficiais que estão adiantadas para ajudar no combate da doença. Uma delas é o Cloroquina que é utilizada no tratamento da malária, outra é o Ritonavir que é utilizada em HIV e tem uma droga nova que eles estão testando no vírus Ebola que ó Remdesivir. A mortalidade em geral desse novo vírus está em torno de 2,5 a 3%. O risco maior é nos idosos quando a mortalidade chega a 14, 15%. No entanto, dos 127.863 casos notificados, até 16h43 do dia (06/03/20), 68.310 já se recuperaram, outros 4718 vieram à óbito. Então, cada vez mais nós teremos pacientes recuperados e acredito que devemos chegar a 80, 90% com o tempo.

10) Em sua opinião, o carnaval pode ter aberto as portas para disseminação do vírus, já que é um evento que atrai pessoas de várias partes do mundo?

Certamente que pode ter colaborado, porém, mais do que o carnaval foi a coincidência da Itália ter estourado mais ou menos nessa época. A Itália estourou no sábado/domingo de carnaval. A China a gente já conhecia e tomávamos todas as precauções necessárias. Se a Itália tivesse apresentado uns dez dias antes, teríamos nos prevenido com relação à Europa. Juntou o carnaval e a questão da Itália. O número de suspeitos deve aumentar bastante e devemos estar preparados para cuidar.