Precisamos olhar para a Saúde Mental dos professores

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Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

Já há alguns meses minhas matérias têm trazido reflexões ligadas, fundamentalmente, aos desdobramentos e impactos da pandemia de Covid-19 sobre a Saúde Mental da população em geral. Neste momento, porém, levando em consideração o que tenho testemunhado através de minha prática profissional e de vivências pessoais, avalio que seja importante focar em um grupo específico: os professores.

É claro que, ao longo desse período, muito já foi falado em relação a eles, em termos das súbitas (e significativas) mudanças em sua rotina e demandas de trabalho. Todos sabemos que esses profissionais, antes acostumados a exercer seu ofício em salas de aula cheias e em contato próximo com seus alunos, tiveram que se reinventar, na velocidade da luz, para continuar ensinando de forma remota. Sabemos, também, que essa transição não foi fácil. Mas será que já paramos para refletir realmente de que forma isso impactou na vida de uma grande parcela deles?

Pode ser que você esteja pensando que todos tivemos que nos reinventar, em maior ou menor grau. É verdade. Mas será que nossas demandas foram igualmente tão diversas para conciliar? Sim, porque os professores não tiveram que dar conta apenas da transformação no formato do conteúdo que ensinam, dentro do seu horário de expediente. Tiveram que acolher a singularidade de seus alunos, muitos deles com dificuldades, seja no processo de aprendizagem em si, na motivação para os estudos ou no acesso às aulas e/ou materiais. Tiveram que atender, não raro dispondo de recursos exclusivamente pessoais, às exigências da coordenação e de seus superiores, independentemente de trabalharem na rede pública ou privada, no ensino infantil, fundamental, médio ou universitário. Tiveram que mediar, muitas vezes, o contato dos pais de seus alunos com a escola, compreendendo as necessidades da família, mas também os limites da instituição. Isso tudo sem contar que, além de professores, continuaram a desempenhar seus papéis de pais, maridos, esposas, filhos – com todas as necessidades e desafios a eles inerentes.

No primeiro semestre deste ano, com a flexibilização das normas de segurança e prevenção, houve a implantação do ensino híbrido – ou seja, uma parcela dos alunos acompanhando os conteúdos remotamente e a outra parcela em formato presencial – e a carga de trabalho desses profissionais aumentou ainda mais. As necessidades da turma que está online e da turma que está no espaço físico da escola não são necessariamente iguais, mas o tempo disponível para atendê-las e o professor continuaram sendo os mesmos.

Atualmente, com o avanço da vacinação, é possível que em breve sejam retomadas todas as atividades totalmente presenciais, o que permitirá o retorno de uma realidade muito mais próxima da que conhecíamos antes. É claro que isso é positivo, mas será que estamos parando para pensar em que condições – físicas e emocionais – se encontram esses profissionais, depois desse período tão prolongado e tão desafiador?

É preciso reconhecer a existência de impacto significativo na saúde mental dos professores que, embora tenha sido identificado, foi (e continua sendo) bastante negligenciado em função das tantas tarefas que precisavam (e ainda precisam) ser cumpridas prontamente. Soma-se a isso a incompreensão de uma parcela da população, que até hoje não mede suas palavras para atacar essa classe de profissionais, acreditando que nesse tempo todo eles ficaram confortavelmente em suas casas e deixaram de trabalhar, quando estiveram se desdobrando das tantas formas que mencionei acima.

O que proponho? Que, se você for professor, possa olhar atentamente para si mesmo e refletir se não é o momento de se cuidar, buscando se fortalecer para lidar com os tantos desafios de seu trabalho. Mas, principalmente, que todos nós possamos exercitar nossa empatia com esses profissionais: que nos coloquemos no lugar deles, reconheçamos e sejamos gratos por seus esforços e, principalmente, que pensemos muitas vezes antes de julgá-los.

Por este motivo, encerro nossa reflexão com uma frase bastante conhecida pelo senso comum, que acredito se aplicar perfeitamente aqui: “muitas pessoas que você conhece estão enfrentando batalhas que você não sabe nada a respeito. Seja gentil. Sempre.”