Saúde Mental não é Luxo

490 0
Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

Temos abordado, recorrentemente, o adoecimento emocional de uma parcela muito significativa da população mundial, especialmente, desde o início da pandemia de Covid-19. Observo, porém, que, especialmente no Brasil, um número considerável de pessoas não se identificam com essa problemática em função de crenças distorcidas que relacionam saúde mental a uma exclusividade de quem tem poder aquisitivo elevado. Já ouvi, inclusive, de uma pessoa (claramente deprimida) que não dispunha de “tempo nem dinheiro para ter depressão”.

Desde sua fundação, em 1948, a Organização Mundial da Saúde trabalha com a noção de que ser saudável não se resume à ausência de enfermidades – consiste no estado de mais completo bem-estar físico, mental e social. Ainda assim, tantas décadas depois, o que observamos é que parte significativa da população vive sem muitas das garantias básicas relacionadas a esses três pilares e, portanto, dificilmente atinge o referido bem-estar.

Por este motivo, é perfeitamente compreensível que a ideia de cuidar da própria saúde mental possa parecer tão distante para tantas pessoas. Isso não significa, porém, que essas mesmas pessoas não possam adoecer emocionalmente. E é por isso que precisamos, urgentemente, desmistificar essa noção equivocada de que só sofre de problemas emocionais quem tem “tempo e dinheiro” para isso – afinal, o primeiro passo para buscar ajuda é aprender a identificar e reconhecer que algo não está bem.

Isso nos leva a uma questão fundamental: o acesso aos serviços de atendimento em Saúde Mental. Esse sim, infelizmente, está longe de ser uma realidade para todos e, quem pode recorrer aos profissionais e clínicas particulares, acaba, de fato, sendo privilegiado nesse sentido. É aí que a noção distorcida de que “ter saúde mental é luxo” – e, portanto, para poucos – ganha força e se consolida. Mas não deveria ser assim.

Afinal, se sofrer de problemas emocionais não é uma escolha e pode acontecer com qualquer um, receber o atendimento adequado também deveria ser uma possibilidade para todos, não é mesmo? Quando, porém, somos levados a acreditar que não temos o direito de adoecer em determinado aspecto porque isso “não é pra nós”, além de deixarmos de nos cuidar e muitas vezes sequer percebermos que estamos adoecidos, também não nos ocorre lutar pelo nosso direito a um atendimento de qualidade se precisarmos dele.

Tenho total noção de que ainda há muito o que caminhar para que essa seja a realidade. Especialmente nesse momento, em que nosso Sistema de Saúde como um todo se encontra sobrecarregado pelas demandas decorrentes da pandemia de Covid-19. Mas entender que Saúde Mental, assim como o bem-estar físico e social um direito de todos, é algo que não pode esperar. Então, reafirmo o que tenho dito com frequência: se você não está bem, não deixe de buscar ajuda. Pode ser que o caminho até ela não seja tão simples e direto, mas isso não faz com que seja um luxo. Pelo contrário: é um direito fundamental. Não fique sozinho.