Violência contra a mulher: é preciso “meter a colher”

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Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

Estamos em março, mês em que é comemorado o Dia da Mulher e, por este motivo, escolhi abordar uma temática que, a cada dia mais, se mostra absolutamente necessária e urgente: a violência contra a mulher. O Brasil tem ocupado lugar de destaque no ranking de países com maiores índices desse tipo de violência e basta um olhar atento às manchetes dos jornais para perceber a frequência de casos dessa natureza.

Falar no assunto envolve compreender um pouco melhor o fenômeno da violência. Trata-se de um conceito extremamente complexo por envolver diferentes concepções teóricas, mas, basicamente, ao falarmos de violência contra a mulher, devemos ter em mente qualquer ato ou conduta, baseado no gênero, que cause dano ou sofrimento físico, psicológico ou sexual. São situações que podem acontecer tanto na esfera pública quanto na privada e envolver qualquer relação interpessoal, mas, na maioria dos casos, o autor da violência tende a ser o companheiro.

A aprovação da Lei Maria da Penha (Lei n. 11.340), em 2006, é um marco extremamente significativo, pois a partir dela, vem sendo possível discutir a violência contra a mulher em toda a sua complexidade e propor ações de enfrentamento alinhadas a essa realidade. A título de informação, nela são definidos cinco tipos de violência: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Atitudes que, por muito tempo, foram naturalizadas em nossa sociedade – como o marido proibir a esposa de ir a determinados lugares ou exercer sua liberdade de crença religiosa, controlar o seu dinheiro, ofendê-la e humilhá-la sistematicamente, expô-la publicamente – hoje estão descritas como formas de violência, o que legitima o seu combate.

Apesar disso, ainda é muito comum que mulheres vivenciem tais situações e não as reconheçam como formas de violência ou que sejam invalidadas em seu sofrimento. Isto se dá tanto pela desinformação, quanto pela banalização e legitimação de comportamentos violentos, em especial ligados à figura masculina. O Machismo Estrutural, que é a noção amplamente difundida em nossa sociedade de que há uma superioridade do homem em relação à mulher, está intimamente relacionado aos julgamentos e à discriminação que, não raro, uma mulher que busca ajuda tende a experimentar, chegando até mesmo a ser corresponsabilizada pela violência que sofreu.

Diante deste cenário, faz-se necessário um trabalho de prevenção que priorize a transformação da concepção social dos papéis de homens e mulheres, visando o combate dessa cultura discriminatória em relação à mulher e de tolerância à violência doméstica. E isto só será efetivo à medida em que a sociedade como um todo esteja envolvida, bem como os serviços de Saúde, de Assistência Social, de Segurança Pública, os Poderes Judiciário, Legislativo e Executivo. Além disso, é fundamental incentivar e criar condições para que essas mulheres realizem a denúncia e busquem ajuda, pois só assim o ciclo de violência poderá ser interrompido.

A alusão proposital, que fiz no título, ao ditado popular “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, tem como objetivo justamente chamar atenção para a necessidade de deixarmos de nos omitir diante de tais situações e, na medida do possível, sermos o princípio da rede de apoio que faz tanta falta a essas mulheres. Que possamos oferecer um espaço de escuta e acolhimento. Que saibamos ouvir sem julgar. Que sejamos a ponte entre quem está sofrendo e os serviços que podem tanto efetivar uma denúncia quanto oferecer atendimento especializado para superação da situação de violência.

E, caso você que está lendo essa matéria esteja vivendo uma relação dessa natureza, saiba que não é preciso ficar sozinha. O que está acontecendo não é normal e, acima de tudo, não é culpa sua. Atualmente, existe toda uma rede de atendimento especializado e romper com o ciclo de violência tem sido uma realidade para muitas mulheres. Peça ajuda.