Você tem conversado com seu filho?

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Luciana é graduada em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto, especialista em Psicologia Clínica pelo IFEN – Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro e possui aperfeiçoamento profissional em Psico-Oncologia Pediátrica pelo Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Atualmente, trabalha como psicóloga da Prefeitura Municipal de Franca e como psicóloga clínica em seu consultório particular, atendendo individualmente crianças, adolescentes e adultos.

Escolhi como título para a matéria da presente edição uma pergunta que gosto de fazer, sempre que tenho oportunidade, tanto aos pais com quem tenho contato como psicóloga quanto àqueles com quem convivo em outros contextos. Parece um questionamento pontual, cuja resposta é bastante simples, mas ele traz uma sutileza que gostaria de ponderar para conduzir nossa reflexão.

Refiro-me ao que pode ser compreendido por “conversar”. Para mim, tal ação está automaticamente relacionada à troca de ideias entre duas ou mais pessoas e, portanto, implica que todos podem expressar seu ponto de vista, caso desejem fazê-lo. Quando, porém, muitos pais me respondem rapidamente “sim” diante da pergunta “vocês têm conversado com seu filho?”, observo que estão se guiando por outra definição deste verbo, que também consta no dicionário e se refere a “discorrer, palestrar”.

Pode parecer meramente uma diferenciação conceitual, mas asseguro que seu impacto é considerável. Especialmente quando acessamos a percepção dos filhos, no contexto da reflexão em questão. É possível que você já tenha vivenciado uma situação na qual outra pessoa diz ter tido uma conversa com você, mas, na verdade, ela simplesmente lhe impôs o seu ponto de vista e não deixou brechas para que você questionasse ou discordasse.

São situações como a que acabo de descrever que têm me chamado cada vez mais atenção. Pais que acreditam que estão mantendo um canal de comunicação aberto com seus filhos meramente porque, com frequência, discorrem sobre o que é certo e sobre como eles devem se comportar. Entendo que isso pode acontecer porque o tempo tem sido cada vez mais escasso e, muitos destes pais, atordoados com tudo o que têm que dar conta, acabam se atendo apenas ao que consideram essencial no contato com seus pequenos. Pode ser também uma concepção de que crianças e adolescentes, por seus poucos anos de vida, não têm opiniões sólidas sobre determinados assuntos e, portanto, nada podem acrescentar. Independente da razão, meu intuito é chamar atenção para as perdas substanciais que esse modelo pode acarretar.

Digo isso porque, do outro lado, tenho encontrado jovens que se sentem absolutamente sozinhos, seja por não terem voz em casa, seja porque as orientações e regras impostas não fazem sentido, mas não existe o espaço para debatê-las. Criam-se abismos entre pais e filhos, justamente em um momento em que a comunicação vem sendo tão valorizada. Acredito que o esforço para transformar esse rumo das coisas seja de fundamental importância.

Como faço questão de ressaltar sempre, não existe receita infalível, mas me parece razoável ponderar que pode ser um bom começo resgatar o sentido de conversar como troca. Sei que, muitas vezes, é difícil para os pais ouvir o ponto de vista de seus filhos, especialmente quando ele é contrário aos seus valores pessoais, por exemplo. Mas, se este for o seu caso, pense comigo: o autoritarismo não os fará necessariamente mudar de ideia e, com certeza, os afastará de você. Que tal, no lugar disso, fazer o esforço de se colocar no lugar do outro?

Pode ser que, dessa forma, você descubra que seu filho também tem muito a lhe ensinar, além de resgatar com ele a condição de ouvir o que você já aprendeu na sua própria caminhada e gostaria de lhe transmitir, para protegê-lo das dores que você sofreu. Em resumo: é preciso ouvir para ser ouvido. Pode não ser nada fácil, mas lhe garanto que os ganhos e o crescimento decorrentes disso são incríveis. Sendo assim... Que tal tentar conversar com seu filho hoje?

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